Manifesto pelo direito ao voto nulo.

Algumas pessoas me perguntam se vou votar em Dilma, baseadas no que conhecem acerca de meus posicionamentos. A resposta de que anularei meu voto costuma chocar, como se o voto nulo fosse voto em Aécio. Não é. Pedem um voto pragmático, como se o meu não o fosse conscientemente baseado em fatos e em fins. O fato é que votei em Dilma em 2010 e esse voto só me trouxe desgostos. O fato é que não pretendo legitimar a eleição de nenhum dos dois candidatos. Entendo perfeitamente o voto em Dilma e tenho consciência de que o adversário e seu partido seriam piores para o Brasil do que um segundo governo Dilma (principalmente no que diz respeito ao projeto de educação universitária que o PSDB mostrou ter no governo FHC e no notável, porém insuficiente, papel que o governo Lula teve na ascensão social de milhões de brasileiros). Apesar disso, não conseguiria suportar mais uma vez o sentimento de que minha mão também está pesando no cassetete da polícia, que também sou culpado pela repressão dos sonhos e pelo projeto de país que dizima os povos indígenas, acaba com clima e com o meio ambiente (sem o qual não existe horizonte de um mundo mais justo, não importa o quanto lutemos).

Nunca foi e continua não sendo opção o voto no PSDB, que representaria a aceleração do modelo neoliberal sem nenhum escrúpulo e a subserviência aos Estados Unidos na política externa. Mas não me sentirei culpado com uma eventual eleição de Aécio Neves. Não acredito que representará o fim das políticas sociais do Lulismo, já que embora tenha colocado os excluídos na conta do orçamento, não paralisou e muito menos diminuiu a cota dos mais ricos nessa mesma conta. O fato de o tucanato estar interessado em fazer política para os mais poderosos não o torna burro e muito menos fará com que não sejam demagógicos e continuem com as políticas sociais. De qualquer forma, se haverá culpados caso o PT perca essa eleição, serão eles próprios. Possibilitou a entrada de pessoas na classe média, mas manteve uma política de comunicação não preocupada em cobrar a Globo pela sonegação de impostos e esqueceu que uma revista criminosa como a Veja continua em todos os consultórios que essa nova classe média pôde passar a frequentar. Incluiu, mas esqueceu que estava incluindo em um meio totalmente conservador e que se não houvesse alguma política para mudar essa situação logo essa mesma classe média poderia se voltar contra o “petismo corrupto amigo de Cuba”. O culpado de uma possível derrota será o PT por ter jogado pesado contra Marina no primeiro turno, possibilitando que o candidato tucano corresse livre rumo a um segundo turno obviamente menos à esquerda do que seria com Marina (que a política econômica de Marina seja tão neoliberal quanto a de Aécio, não tenho dúvidas, mas que um segundo turno com ela arrastaria o debate para esquerda, ao menos em assuntos como meio ambiente e política energética, é inegável). Isso sem contar o fato de o governo Dilma ter sido o que menos fez reforma agrária ou demarcou terras indígenas e unidades de conservação em muitos anos (menos inclusive do que o governo de FHC). Isso desconsiderando o fato de que o programa “Minha Casa, Minha Vida” melhora mais a vida das empreiteiras do que do MTST (que não apoiou Dilma no primeiro turno). Isso sem levar em conta que Dilma não faz propaganda de opção sexual, revogou portaria que regulamentava o aborto (nos casos já legais!!!) por pressão do fundamentalismo. Isso sem levar em conta o peemedebismo e as alianças preferenciais do PT nos últimos anos que não me garantem de forma nenhuma que a agenda progressista irá avançar. Fala-se em governabilidade para justificar os recuos, mas ao invés de se concentrar em aumentar a bancada progressista, Dilma fez campanha para Kátia Abreu e a colocou junto de Renan Filho no seu primeiro programa no segundo turno.

O projeto de país de Dilma não me representa. Não quero o país do agronegócio (é mentira que nos alimentam, quem o faz é a agricultura familiar), não quero o país do “mais engenheiros, menos sociologia e filosofia”, não quero o país das barragens, do estímulo ao transporte individual, do pré-sal. Não pretendo votar junto com quem acha que o principal problema do país é a falta de crescimento; Se todos consumissem como os estadunidenses necessitaríamos de quatro planetas Terra (eles são SUPERdesenvolvidos [Viveiros de Castro], mais do que deveriam, e não nós subdesenvolvidos) , o horizonte portanto deve ser o de barrar o crescimento, levar em conta que há um limite para a utilização dos recursos naturais. Acompanho meu amigo Alexandre Araújo na ideia de que mais importante que o 2º turno são os 2ºc que vamos aumentar na média climática se não lutarmos contra a política energética e ambiental dos candidatos que estão aí. Menos barragens e mais painéis fotovoltaicos nos tetos das casas. Lugar de fóssil é debaixo da terra, não sendo queimado na atmosfera. Não só desmatamento zero, mas também reflorestamento (ou ficaremos sem água para sempre). Pelo fim do etnocídio perpetrado contra os povos indígenas. Por uma perspectiva ecossocialista de projeto de país e de planeta, voto em Ninguém.

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